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| São Francisco de Sales. Bispo e Príncipe de Genebra, Doutor da Igreja, Patrono da família Salesiana, Patrono dos escritores e dos jornalista. |
(...) Se fosse possível tirar a maledicência do mundo, exterminar-se-ia uma boa parte dos pecados.
Quem
tira injustamente a boa fama ao seu próximo, além do pecado que comete, está
obrigado à restituição inteira e proporcionada à natureza, qualidade e
circunstância da detração, porque ninguém pode entrar no Céu com os bens
alheios, e entre os bens exteriores a fama e a honra são os mais preciosos e os
mais caros. (...)
A
maledicência é uma espécie de assassínio e o maldizente torna-se réu de um
tríplice homicídio espiritual: o primeiro e o segundo com respeito à sua alma e
à alma da pessoa com quem se fala; e o terceiro com relação à pessoa com que se
deturpa o bom nome. S. Bernardo diz, por isso, que os que cometem a maledicência
e os que a escutam têm o demônio no corpo, aqueles na língua e estes no ouvido.
(...)
Peço-te
encarecidamente que nunca fales mal de ninguém, nem direta nem indiretamente.
Guarda-te conscientemente de imputar falsos crimes ao próximo, de descobrir os
ocultos, de aumentar os conhecidos, de interpretar mal as boas obras, de negar o
bem que sabes que alguém possui na verdade ou de atenuá-lo por tuas palavras.
(...)
Aqueles
que, para maldizer, começa elogiando o próximo, são ainda mais maliciosos e
perigosos. (...) quem quer disparar um arco puxa-o primeiro quanto pode para si,
mas é só para o arremessar com mais força. (...)
A
maledicência, afinal, proferida à guisa de gracejo, é a mais cruel de todas,
tanto assim que se pode comparar a sua crueldade com a da cicuta, que, não sendo
em si um veneno muito forte e até fácil de ser preservado, se torna
irremediável, se se mistura com o vinho. Deste modo uma maledicência que por si
não conseguiria outra coisa senão entrar por um ouvido e sair pelo outro, muito
impressiona o espírito apresentando-se dum modo sutil e jocoso.
(...)
Nunca
digas: - Fulano é um bêbado, embora o tenhas visto embriagado. (...) Porque uma
só ação não dá nome à coisa. (...) Para tomar o nome de uma virtude ou de um
vício, é preciso ter progresso e hábito neles. (...)
Ainda
que um homem tenha sido viciado muito tempo, corremos risco de mentir, se o
chamarmos de viciado. Simão, o Leproso, tachava a Madalena de “pecadora”, por
que ela o tinha sido antes. Mas ele mentia, pois ela já não era.
(...)
Esta
delicadeza de consciência devemos unir à prudência, que é necessária para
precavermo-nos de outro extremo. (...) Para fugir à maledicência não devemos
favorecer os outros vícios, nem os lisonjear nem os estimular; mas deve-se dizer
franca e livremente o que é repreensível. Fazendo, sem dúvida daremos glória a
Deus, contanto que observemos as condições seguintes:
Em
primeiro lugar só se devem repreender os vícios do próximo, se disso provier
alguma utilidade para aqueles de quem se fala ou para aqueles com quem se fala.
(...)
Em
segundo lugar, é necessário que eu tenha obrigação de falar, como se eu fosse um
dos principais daquela reunião de pessoas, de forma que o meu silêncio passasse
por uma aprovação. Se eu ocupo um dos últimos lugares, nem devo nem posso
repreender a ninguém e minhas palavras devem ser bem pensadas e exatas, para não
dizer mais do que é preciso. (...)
A
Sagrada Escritura compara muitas vezes e com muita razão a língua maldizente a
uma navalha, porque, ao julgar o próximo, se deve prestar tanta atenção, como um
hábil cirurgião que corta entre os nervos e os tendões. É preciso que o golpe
que eu der seja tão certeiro e justo, que não diga nem mais nem menos do que
é.
Enfim,
censurando algum defeito, devemos poupar a pessoa tanto quanto podemos. É
verdade que se pode falar abertamente dos pecadores públicos reconhecidos como
tais, mas deve ser em espírito de caridade e compaixão e não com arrogância ou
presunção por um certo prazer que se acha nisso; este último sentimento
denotaria um coração baixo e vil. Excetuo somente os inimigos de Deus e da
Igreja, porque a estes devemos combater quanto pudermos, como são os chefes de
heresias, cisma, etc. É uma caridade descobrir o lobo que se esconde entre as
ovelhas, em qualquer parte onde o encontrarmos.
Alguns
tomam a liberdade de criticar os príncipes e falar mal de nações inteiras,
conforme o afeto particular que lhes consagram. Não incidas nesta falta, que,
além de ser uma ofensa a Deus, poderia causar mil gêneros de desgostos. Ouvindo
falar mal do próximo, procura pôr logo em dúvida o que se diz, se o podes fazer
justamente; ao menos desculpa a sua intenção ou, se isto mesmo não for possível,
manifesta a tua compaixão. Muda de assunto, lembrando-te a ti mesmo e às outras
pessoas que quem não comete muitas faltas só o deve à graça divina. Procura por
algum modo delicado que o maldizente reconsidere e, se sabes, dize francamente
algum bem da pessoa ofendida. (...)
Uma
escusa verdadeira tem muito maior graça e eficácia, para justificar, que uma
mentira meditada.
Conquanto
se possa às vezes disfarçar e encobrir a verdade por algum artifício de
palavras, só o devemos nas coisas importantes, quando a glória e o serviço de
Deus o exigem manifestamente; fora disso são estes artifícios muito perigosos,
tanto assim que diz a Sagrada Escritura que o Espírito Santo não habita num
espírito dissimulado e duplo.
Nunca
existiu sutileza melhor e mais estimável que a simplicidade.
(...)
Aconselhava
o Rei S. Luíz nunca contradizer a ninguém senão em caso de pecado ou de algum
grave dano, para evitar as contendas. E, quando for necessário contradizer aos
outros e opor a própria opinião à sua, isto deve ser feito com muita doçura e
jeito para não parecer que se lhes quer fazer violência; tanto mais que com
aspereza pouco ou nada se consegue.
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(Introdução
à Vida Devota, Vozes, Petrópolis, 1992, pp. 305 a 314)


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