Tanto mais era amigo da oração e em tudo se deixava guiar pelo temor de Deus.
Quando a divina Providência lhe depositou nas mãos os destinos da nação, seu
primeiro cuidado foi trabalhar pela cristianização do povo, como daqueles outros
povos, que em guerras justas foram sujeitos ao seu cetro.
Casado com Elta, nobre princesa de Flandres, teve um filho, Carlos, que mereceu
da Igreja a honra dos altares. Para os súditos foi Canuto um
verdadeiro pai; seu regime era a caridade e a justiça. As leis
eram severas, mas obedeciam aos ditames da justiça; era necessário um certo
rigor, para exterminar rudes vícios e implantar sentimentos cristãos nos
corações dos semibárbaros. Caridoso em extremo para com os órfãos, viúvas e
necessitados, era inquebrantável quando malvados lhe provocavam a sentença de
juiz. Sabendo que o melhor educador duma nação é o bom exemplo que vem de cima,
considerou como primeiro dever seu servir de modelo aos súditos. Em casa lhe
reinava o Espírito de Deus, e nada lá se percebia que não se coadunasse com os
bons costumes e regras da vida cristã. Para consigo era de grande rigor. Por
baixo das vestes régias trazia sempre cilício. Horas inteiras eram dedicadas à
oração. Em compensação não ia atrás dos divertimentos, como fossem a caça, o
jogo e outros. Terníssima devoção tinha à Mãe de Nosso Senhor. Em toda a parte
do reinado se ergueram igrejas, conventos, escolas e hospitais, todos
subvencionados pelo santo rei. “Para Deus o melhor”, costumava dizer. “O mais
precioso convém ser aplicado ao adorno dos templos e não deve servir à vaidade
ou à ambição dos poderosos do mundo”.
Infeliz nos empreendimentos bélicos contra a Inglaterra, Canuto introduziu o
dízimo eclesiástico, medida que não teve o apoio da nação. O rigor com que foi
extorquido o imposto, causou grande descontentamento, e em muitos lugares franca
oposição. Houve casos em que o povo, exasperado, linchou os fiscais. O
descontentamento degenerou em rebelião, que obrigou o rei a
procurar abrigo em Odensee. Os inimigos, porém, perseguiram-no até à igreja,
onde o assassinaram ao pé do altar. Canuto IV foi canonizado por Pascoal I.
São Canuto é padroeiro
da Dinamarca.
Reflexões:
A vida deste santo
Soberano revela-lhe o profundo respeito para com os sacerdotes e o empenho de
incutir o mesmo respeito aos súditos. Os sacerdotes não são Anjos. São homens
fracos, como os demais. Cristo entregou o governo da Igreja não a Anjos, mas a
sacerdotes – a homens. Nada mais natural, coisa que não pode surpreender que
sacerdotes errem e pequem. A história da Igreja de todos os países tem exemplos
de grandes faltas e escândalos de sacerdotes, que na sua queda arrastam muitos
outros à perdição.
Entre os próprios
Apóstolos, havia um infiel e ladrão. Ário, Nestório, Pelágio, Lutero, Calvino,
eram sacerdotes. É fato que se observa: um sacerdote, que declina do caminho do
dever e da virtude, costuma ser pior que outros pecadores, que ofendem
gravemente a Deus. Se um dia teus olhos ficarem ofendidos pela falta cometida
por um sacerdote, se acontecer que o mau procedimento de um levita do Senhor te
cause grave escândalo, não te deixes perturbar na fé e nas convicções
religiosas. O pecado individual de um sacerdote não afeta o estado sacerdotal, e
não degrada a dignidade deste mesmo estado. O caráter sacerdotal, não pode ser a
causa do pecado; a queda é sempre devida à fraqueza ou à corrupção interior. O
pecado, portanto, envergonha e desonra o indivíduo, não porém, o estado de que é
representante. O Apostolado nada perdeu em dignidade e grandeza pela traição de
Judas. O próprio Salvador disse: “É preciso que haja escândalos; ai ! do homem,
porém, que der escândalo”. Longe, portanto, de vacilar na fé, quando souberes de
semelhantes coisas, pede a Deus que dê a Igreja, dignos e santos sacerdotes,
conserve na sua graça os bons, e reconduza ao bom caminho os maus. Bons
sacerdotes são a benção do povo; maus sacerdotes são sua desgraça. Se é certo,
que um bom sacerdote não entra sozinho no céu, certo é também, que o mau
sacerdote não entra sozinho no inferno. Não há dúvida alguma que Deus atente às
orações feitas no intuito de obter bons sacerdotes.
Estado nenhum há
tão odiado e desprezado como o sacerdotal. Há pessoas, se bem que católicas, que
não perdem a ocasião de dar demonstração da antipatia, do desprezo que votam ao
estado sacerdotal e a seus representantes. Em muitos é um profundo
preconceito que os faz proceder desta maneira. Generalizam a falta que observam,
em um ou outro sacerdote, estendendo-a à classe toda. Não se
convencem da injustiça que cometem, e da falta de lógica em que incorrem.
Há maus médicos.
Maus advogados, maus engenheiros; no entanto ninguém inculpa a coletividade das
respectivas classes, por causa de faltas de indivíduos indignos. Seria uma
injustiça.
Não se deve
aplicar a mesma medida ao estado mais venerável ? – Outros há que odeiam o
sacerdote por causa do caráter sagrado. Este ódio não se dirige contra a pessoa
do sacerdote, mas contra o estado que representa. É um ódio satânico, de que
Nosso Senhor falou: “Se me odiaram a mim, que sou vosso Mestre, a vós odiarão”.
É ódio a Cristo, à Igreja.
O bom católico
respeita os sacerdotes, reconhecendo neles os mistérios de Jesus Cristo. Santo
Antônio pedia a benção dos sacerdotes ajoelhando-se diante deles. Santa Catarina
de Siena não beijava a mão do sacerdote, mas o lugar onde ele pisava o pé.
Santa Tereza
dizia: “ Encontrando-me com um Anjo e um sacerdote, a minha primeira saudação é
feita ao sacerdote, a segunda ao Anjo”.
São Canuto não consentiu
que seus inimigos fossem perseguidos. A prática mais difícil da caridade é
perdoar aos inimigos. Perdoar a quem nos ofendeu, é cumprir o mandamento de
Cristo, que nos ordena não só amar os amigos, como também rezar pelos que nos
perseguem, e abençoar os que nos caluniam. Jesus Cristo deu o exemplo mais belo
de amor aos inimigos, quando, ao subir no altar da Cruz, dirigiu ao Pai eterno
esta súplica comovedora: “Pai perdoai-lhes, porque não sabem o que
fazem”.
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